terça-feira, 31 de março de 2015

Relato #2: Estágio Supervisionado à Docência

MESTRADO ACADÊMICO EM ARTES – PPGARTES/ICA/UFPA
ESTÁGIO SUPERVISIONADO – 2º dia: 24/03/2015
DISCIPLINA: Teatro de Animação – Prof. Aníbal Pacha
INSTITUIÇÃO: Escola de Teatro e Dança – Universidade Federal do Pará
CURSO: Licenciatura Plena em Teatro
DIÁRIO DE ATIVIDADES – Katiuscia de Sá


A PEDAGOGIA COMO CULTURA E A CULTURA COMO PEDAGOGIA


Uma coisa importante na formação dos futuros professores de arte é despertá-los para a questão da Teoria do Currículo: teorias tradicionais; críticas; pós-criticas e teorias depois das pós-criticas, para que eles compreendam essa relação intrínseca entre políticas educacionais, conceitos ideológicos e espaço escolar, com questão que permeiam as entrelinhas dos conteúdos programáticos existentes como "currículo oculto". 

Observei muito o cuidado no discurso pedagógico de prof.º Aníbal durante o repasse das informações referentes ao conteúdo de sua disciplina nesta segunda aula. Esse foi o ponto que mais me chamou atenção. Prof.º Aníbal discorria de forma tão natural e orgânica sobre assuntos transversais, indo direto na parte sensível dos alunos, para que os mesmos atentassem para a valorização da Arte produzida aqui e a construção da identidade cultural local, conscientizando-os sobre o fato do artista ser ao mesmo tempo o sujeito criador que de certa forma também etá educando (em algum grau) o espectador. Essa postura faz com que os alunos atentem para os conteúdos de temas transversais possíveis de serem trabalhados em sala de aula a partir de sua modalidade artística, e também sobre o espaço geográfico cultural e desenvolvimento da comunicação estética entre os valores dos saberes individuais junto ao coletivo numa atividade discursiva.

Como a disciplina requer obrigatoriamente a compreensão e leitura imagética, por se tratar de Teatro de Formas Animadas, o exercício do olhar vai do objeto concreto até atingir o imaginário.


A partir do "imaginário" das coisas, questões como cultura e saber; artista e conteúdo; espaço cultural geográfico e comunicação podem ser traçados. E esse diálogo aberto e discursivo em sala de aula, durante a formação de futuros professores de arte, é o diferencial, pois abre espaço para que aos poucos os agentes se deem conta dessa construção bilateral do saber que as Artes proporcionam.

Profº Aníbal explicou e exemplificou os nomes técnicos e subgêneros do Teatro de Formas Animadas a partir de exemplos locais e através da discussão do imaginário amazônico abriu-se espaço para pôr na roda percepções como:
a) postura sociopolítica incutida na obra do artista;
b) a experiência artística como abordagem metodológica;
c) discussão política sobre a realidade teatral local e nacional;
d) valorização da cultura amazônica como código identitário;

Percebi que a eficácia desse tipo de abordagem pedagógica depende muito da relação horizontal entre professor x aluno, e não funcionaria muito, caso a relação entre eles fosse a “tradicional bancária", como pontua Paulo Freire em suas obras sobre as pedagogias.



Referência:

SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de Identidade: uma introdução às teorias do currículo. 3ª ed. Belo Horizonte: Autentica, 2010.



quinta-feira, 19 de março de 2015

Relato #1: Estágio Supervisionado à Docência

MESTRADO ACADÊMICO EM ARTES – PPGARTES/ICA/UFPA
ESTÁGIO SUPERVISIONADO – 1º dia: 18/03/2015 
DISCIPLINA: Teatro de Animação – Prof. Aníbal Pacha
INSTITUIÇÃO: Escola de Teatro e Dança – Universidade Federal do Pará
CURSO: Licenciatura Plena em Teatro
DIÁRIO DE ATIVIDADES – Katiuscia de Sá


De acordo com as indicações do professor sobre minha postura em sala de aula durante suas atividades, eu devia evitar interferir em seu processo de abordagem educacional. Por isso o observei dando a aula na maior parte de tempo possível, e também focando nas reações dos alunos no evoluir da aula.
  

PROCESSOS CRIATIVOS EM ARTES (ou experiência artística) & PROCESSOS PEDAGÓGICOS DE ENSINO DE ARTES NAS ESCOLAS

Sob esse foco central durante minha observação de prof. Aníbal em sala de aula, conclui definitivamente de quanto as metodologias participativas são importantes no processo de formação de futuros professores (sejam de Artes ou de outras disciplinas). Como já sou fruto de um longo processo pedagógico dentro desta própria instituição (ETDUFPA), como ex-aluna, eu acho muito natural a qualidade afetiva-sensório-perceptiva-participativa por parte dos professores para com os alunos despertando nestes, também essa qualidade de troca; porém ao me deparar com o ensino regular nas escolas que “não são de artes”, ou seja, escolas de ensino fundamental e básico da rede publica e/ou particulares (nestas ainda há uma melhor qualidade nesse sentido, em alguns casos), que não promovem o processo de corporeidade do educando para desencadear a trajetória de ensino-aprendizagem em sala de aula, sinto um impacto que ainda me incomoda bastante.

Esse impacto é proveniente da falta de envolvimento humano, que revela em cheio a frieza e desinteresse de alguns profissionais da educação em realmente querer prestar uma aula de qualidade com envolvimento afetivo-pedagógico, e isso reflete em cheio na formação de futuros profissionais da área e/ou indivíduos que dependem deles para tornarem-se futuros cidadãos ativos, justamente porque por trás de todo processo social está embutido as “pedagogias invisíveis”, nesse caso quem mais a exerce são os profissionais que estão em evidencia constante para um numero de pessoas subordinadas a eles (em maior ou menor grau) durante o processo. Ex: professores; advogados; chefes de sessões de departamentos; etc.

Mas o foco aqui está na formação de professores. Gostei bastante da postura de prof. Aníbal em sala de aula que ao ministrar o conteúdo programático da disciplina, ele o fez de forma a oferecer para turma uma abertura para esta “construção do conhecimento”, haja vista que foram feitos acordos de convivência em sala de aula os quais também poderiam ser revistos no decorrer da disciplina. Ou seja, o que prof. Aníbal fez no primeiro dia de aula foi dar aos alunos certa autonomia mostrando-lhes a responsabilidade de suas próprias escolhas para o presente e futuro naquele espaço de aprendizagem. E isso é importante para o processo formativo do professor que irá se deparar com obstáculos de ordem afetivo-emocional-comportamental de seus futuros alunos. Além do conteúdo da disciplina os alunos de prof. Aníbal estão “aprendendo” de maneira subjetiva, como conversar com seus alunos; compreender o grau de entrega e participação durante a execução de alguma atividade; desenvolver o respeito e delicadeza para como o outro, etc.; são questões fundamentais para o processo de ensino-aprendizagem em Artes.

Esses quesitos ficam mais acentuados quando percebemos que os processos criativos em artes (ou experiência artística) & processos pedagógicos de ensino de artes nas escolas estão intimamente ligados. Sob essa reflexão veio à tona meu questionamento: para ser professor de Artes nas escolas regulares de ensino, o profissional deve ser artista ou ter passado por alguma experiência de construção artística para ter sua própria abordagem de ensino em sala de aula? A conclusão que eu cheguei, foi sim (considerei também minha própria experiência enquanto artista e arte-educadora para chegar a essa conclusão).

O professor de artes deve ser artista ou pelo menos já ter experenciado algo próximo disso. Porque digo algo assim? Porque o despertar da sensibilidade não pode ser ensinada e sim sentida, é um processo individual e íntimo. Contudo, exercícios para despertar a sensibilidade, a percepção, a cognição, o sentido estético podem ser feitos para se alcançar esse estado. Desse modo pude fazer um link direto com as atividades que prof. Aníbal utilizou em sala de aula. Percebi a importância de oferecer meios para que o pensamento sensível possa ser materializado. Como isso pode acontecer? Através de atividades lúdico-praticas atribuindo movimento e corporeidade no ato do ensino-aprendizagem. Essa discussão é antiga, também defendida em estudos da Fenomenologia. Segundo o conceito de corpo em Merleau-Ponty, a percepção adquire o caráter de mobilidade quando o autor propõe que o conhecimento é gerado e modificado através do movimento físico – que engloba também os atributos ocultos (alma, pensamento, emoções) – como dados importantes no ato de perceber o mundo, conforme observa NÓBREGA, 2008,  pg. 142:

[...] a percepção do corpo é confusa na imobilidade, pois lhe falta a intencionalidade do movimento. Os movimentos acompanham nosso acordo perceptivo com o mundo. Situamo-nos nas coisas dispostos a habitá-las com todo nosso ser. As sensações aparecem associadas a movimentos e cada objeto convida à realização de um gesto, não havendo, pois, representação, mas criação, novas possibilidades de interpretação das diferentes situações existenciais.

Essa corporeidade muito comum (e natural) nas crianças quando elas “jogam/brincam” com as informações e objetos que as circulam é o canal delas para que o processo de ensino-aprendizagem seja eficaz. Mas com o tempo, o ser humano “cresce” e é obrigado a se desligar desse processo natural e isso o deixa limitado em diferentes aspectos cognitivos, dificultando o desenvolvimento sensível desse individuo.

Prof. Aníbal utilizou recursos para sensibilização e leitura de imagens; percepção auditiva; imaginativa; corporal e da fala através de atividades lúdicas que possibilitavam a materialização do pensamento sensível dos alunos, fazendo-os necessariamente perceber de maneira substancial o que estava sendo abordado em sala de aula. E para o universo de teatro animação, essa sensibilidade e (re)conhecimento corporal é importante para o momento em que o ator e seu títere estiverem em contato antes e no momento da cena. Acredito que esse é um meio bastante humanizado para o ensino-aprendizado em Artes: a construção de uma educação sensível, que envolve ao mesmo tempo a cognição e sentido estético como elementos extras.



Referencias:

BOLSANELLO, Débora, Educação Somática: investindo na tecnologia interna. 2008. Disponível em: <www.movimentoes.com>. Acessado em: 24 dez. 2012.

BOLSANELLO, Débora, Corpo Livre e Corpo Possuído. 2008. Disponível em: <www.movimentoes.com>. Acessado em: 21 dez. 2012.

NÓBREGA, Terezinha Petrucia da. Corpo, percepção e conhecimento em Merleau-Ponty, Estudos de Psicologia 2008, 13(2), 141-148. Disponível em:
www.scielo.br/epsic. Acessado em: 27/02/2015.


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*fotos: Katiuscia de Sá








quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O CADEADO DE HOUDINI


O processo de aprendizagem pode ser encarado como um habitus, passível de ser adquirido, desenvolvido e modificado ao longo da vida de uma pessoa. Segundo a perspectiva de Durkheim, podemos compreender a palavra de origem grega encerrando um fator excludente e perverso dentro do contexto escolar, pois conforme o habitus adquirido pelo individuo dentro de determinada instituição social, este fator pode condicioná-lo para sempre a classes sociais compreendidas como “inferiores” (ou simplesmente sendo formado para ser absorvido pela sociedade como mão-de-obra humana dentro do sistema capitalista). Desse modo ficam as classes operárias destinadas ao ensino profissionalizante, apossando-se deles o fantasma do “currículo oculto” gerando-lhes atitudes passivas e servis, bem como o engessamento do ato reflexivo, do livre pensar e de criatividade para solucionar problemas dentro e fora da sala de aula.

Em contraste com esse tipo de ensino existem instituições particulares onde a grade curricular engloba perspectivas mais amplas, contemplando as grandes áreas do conhecimento, com largo teor artístico e filosófico perpassando as atividades. Ensino este restrito, na maioria das vezes, às classes A e B (normalmente devido ao poder aquisitivo confortável); estas crianças e jovens adquirem e desenvolvem habitus mais refinados, alargando  e desenvolvendo outro tipo de linguagem que os fazem ter uma leitura mais dinâmica de mundo, repleta de conexões, facilitando suas experiências cotidianas, na tomada de decisões em situações complexas. Assim, essas classes naturalmente crescem com a mentalidade de que foram preparadas para estarem no topo da pirâmide capitalista. Têm mais acesso à informação e códigos que os permitem maior mobilidade nas diversas áreas sociais.

Contudo, mesmo com este suposto determinismo do habitus, existem atualmente variadas metodologias de ensino (formal e não-formal) que suprem esse abismo cavado de séculos e séculos entre os liceus profissionalizantes e as escolas elitistas. Um caminho possível é o ensino dos conteúdos através do olhar artístico. Essa alternativa permite que a interdisciplinaridade (pop star da atualidade), possa acontecer durante a construção do conhecimento dentro e fora da sala de aula.

Um forte exemplo desse tipo de pedagogia mais abrangente está em Paulo Freire, atitude amplamente discorrida em seu livros  Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Autonomia e A Importância do ato de Ler, onde Freire comenta de maneira simples e objetiva sobre como se pode atrelar a realidade social através do ensino dos conteúdos, de modo a fazer o educando perceber a beleza de estar desenvolvendo (ao mesmo tempo) o prazer do conhecimento a partir de sua própria visão e experiência de vida, como perceber-se um ator social dentro da engrenagem da sociedade capitalista em que estamos inseridos. Além disso, Freire também alfineta a postura engessada dos professores em sala de aula, abrindo os olhos dos mesmos para uma formação continuada profunda, que os faça modificar o habitus que os deixaram (inconscientemente) como multiplicadores de posturas “bancárias” na relação professor-aluno.

Entretanto, sabemos que apenas essa tomada de consciência, seguida de medidas sócio educacionais permeando o roteiro de ensino-aprendizagem dentro das escolas não basta. Não se pode funcionar como um foco isolado na sociedade, há também fatores econômicos, sociais, culturais, políticos, etc... envolvidos para a permanência desse tipo de ensino “bancário” nas escolas publicas do País.

Penso que o que nós, enquanto professores da modalidade da EJA (Ensino de Jovens e Adultos), podemos nos amparar em nossa postura profissional e ética, estando certos de nossas escolhas dentro e fora da sala de aula. Pois sabemos que existem as politicas educacionais que beneficiam de maneira justa apenas uma parcela da sociedade, e sabemos também que “justiça” e sentido de igualdade dentro desse modelo econômico capitalista ao qual estamos mergulhados, é algo que não se encaixa. O que há são pequenas barricadas possíveis de serem erguidas no meio dessa guerra branca.

Acredito que o professor da EJA quanto mais estiver munido de metodologias outras, conhecimento sobre as leis que regem essa modalidade de ensino, bem como conhecimentos de diversas áreas, facilitará a mobilidade deste profissional em saber se colocar dentro dos ambientes escolares “formais”, pois por incrível que pareça, são nos próprios locais de ensino regular que mais existem resistências e/ou incompreensão da tal “interdisciplinaridade”. O modelo cartesiano está profundamente enraizado em diversos pontos da sociedade que torna quase um truque a la  Houdini (do que algo real), que professores dialoguem entre si para abertura de trabalho inter e extra curriculares nas escolas, para que o corpo docente trabalhe em conjunto visando contemplar essa tal “interdisciplinaridade”...

Por fim, discorro mais sobre o fator benéfico que o ensino das Artes (Teatro, Música, Dança, Artes Visuais) pode proporcionar ao individuo (se realmente) os professores se apossarem dos conteúdos, assumindo a ludicidade de métodos de ensino menos autômatos. Quem conhece a(s) realidade(s) em sala de aula do ensino público no Brasil, sabe da guerra fria e consciente que os professores de Arte travam todos os dias com o conselho escolar das instituições onde lecionam, para o melhor desempenho de seu conteúdo programático da disciplina. Não perderei tempo discorrendo sobre essa guerrinha... Reflito sim, sobre como o professor de Arte pode se fortalecer e ultrapassar esse abismo.

Penso que a sensibilização da criança/jovem pode ser trabalhada em sala de aula através das disciplinas artísticas, a partir do momento em que esses conteúdos se tornam algo com sentido para os educandos. Isso ocorre quando é construído um elo emocional entre o que se compreende dos conteúdos. E nada mais divertido do que apreender conhecimento através da ludicidade, que o próprio material artístico pode oferecer, caso o professor lance mão de metodologias que considerem o repasse desse conteúdo.

Sabe-se que as Artes contemplam refinados mapas cognitivos existentes no universo individual, onde a linguagem reinante é a não-verbal e/ou simplesmente sensorial, daí acontece a mágica de Houdini: a (re)organização do conhecimento interior e exterior ao indivíduo conforme inúmeras possibilidades de escolha. O educando aprende a abrir o cadeado que o encerra na jaula. Começa a tecer conexões entre o que aprende na escola com o que vive de fato no seu cotidiano. E a atividade de compreender os conteúdos escolares torna-se para ele algo prazeroso, com sentido mais profundo, daí conclui-se que o habitus, é passível de ser adquirido, desenvolvido e modificado ao longo da vida de uma pessoa, basta encontrar as chaves certas para que a “mágica” aconteça, pois conforme comenta Débora Bolsanello (2008) acerca de possíveis conflitos que podem ocorrer com a tomada de consciência dos alunos que aderem às práticas de Educação Somática diante das exigências e imediatismos cegos da sociedade atual: “Feldenkrais costumava dizer que quando só conhecemos uma maneira de fazer algo, estamos presos a um padrão. Mas, se conhecemos duas maneiras de fazer algo, temos escolha. E se conhecemos três maneiras de fazer algo? Temos liberdade”.


Escrito em: 01 e 02 de Outubro de 2014

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Referências:

ALMEIDA, Cristiane Maria Galdino de. O multiculturalismo nas políticas públicas para a cultura, artes e música: a educação musical intercultural, in: XVI Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Música (ANPPOM), Brasília – 2006, p. 99 – 103.

BOLSANELLO, Débora, Corpo Livre e Corpo Possuído. 2008. Disponível em: <www.movimentoes.com>. Acessado em: 21 dez. 2012.

Conselho Nacional de Educação (Brasil). (1999) op. Cit. 
CORAZZA, Sandra, O que quer um currículo? Pesquisas pós-críticas em Educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder, (organização e tradução: Roberto Machado), Rio de Janeiro: Graal 25ª ed., 1979.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: 17ª ed. Terra e Paz, 1987.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996 – (coleção Leitura)

FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler São Paulo: Autores associados: Cortez, 1989 – (coleção Polêmicas do Nosso Tempo; 4).

HUMMES, Júlia Maria. Por que é importante o ensino de música? Considerações sobre as funções da música na sociedade e na escola. Revista da ABEM, Setembro/2004 Nº 11.

SETTON, Maria da Graça Jacintho. A teoria do habitus em Pierre Bourdieu: uma leitura contemporânea. Universidade de São Paulo, Faculdade de Educação. Maio/Jun/Jul/Ago 2002 Nº 20.

SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias de currículo.3° Edição. Editora Autêntica. 2010.

TORRES, Renato. Reflexões sobre o ensino da arte na contemporaneidade e suas relações com as teorias de currículo. Disponível em: <www.pucpr.br/eventos/educere/educere2006/.../docs/CI-268-TC.pdf>. Acessado em 02 out. 2014.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Educação e Currículo: o engessamento da formação dos professores nas universidades





Analisando os motivos velados que o sistema organizacional brasileiro preconiza para que tais modelos educacionais tornem-se legítimos, tomamos como base os estudos de Michel Foucault em seu livro “Microfísica do Poder” (1979), onde o autor discorre sobre esses mecanismos de coerção em massa e como eles permeiam a sociedade: “Verdade e Poder”; “Os intelectuais e o poder”; “Poder-corpo”; “Genealogia e poder”; “Soberania e disciplina”, dentre outros mecanismos de dominação que afetam também as instituições de ensino que atuam na formação dos professores, como também no cotidiano para seu exercício de docência, engessando  docentes e discentes e a própria gestão escolar numa espécie de conivência mútua.
Observa-se que o endurecimento na formação dos professores nas universidades surge como reflexo das disputas de controle ideológico do Poder exercido pelas quatro esferas coercitivas, que influenciam nas decisões comportamentais da sociedade funcionando em conjunto (Igreja, Política, Economia e Mídia), os comportamentos provenientes dessas esferas de poder são assimilados e multiplicados pela sociedade. Assim o interesse de controlar a massa de manobra é feita em concordância com o que a população em geral compreende como normatividade ou algo “natural” do domínio de convívio social, afinal:

“[...] estamos submetidos à verdade também no sentido em que ela é lei e produz o discurso verdadeiro que decide, transmite e reproduz, ao menos em parte, efeitos de poder. Afinal, somos julgados, condenados, classificados, obrigados a desempenhar tarefas e destinados a um certo modo de viver ou morrer em função dos discursos verdadeiros que trazem consigo efeitos específicos de poder” (FOUCAULT, 1979, p. 180)

Como ‘discursos verdadeiros’, compreendemos as entrelinhas das ações governamentais apoiadas pelas demais esferas de controle. Isso é muito visível quando analisamos o conteúdo das disciplinas vigentes nas escolas da rede publica. Há sempre a predominância de setores econômicos, culturais e ideológicos das regiões e estados brasileiros que se destacam como influencias políticas no País. Contudo, o que se mostra mais perverso são as barreiras ideológicas erguidas contra o progresso em prol da implantação e adaptação dos conteúdos para o ensino integrado nas escolas publicas brasileiras. Isso é um reflexo dos mecanismos de poder sendo postos em ação, segundo Foucault:

“[...] quando penso na mecânica do poder, penso em sua forma capilar de existir, no ponto em que o poder encontra o nível dos indivíduos, atinge seus corpos, vem se inserir em seus gestos, suas atitudes, seus discursos, sua aprendizagem, sua vida quotidiana” (FOUCAULT, 1979, p. 131)
                                                                                                                             
Se fizermos uma volta no tempo, veremos que a educação se fez à divisão do trabalho desde o Brasil colônia nas Corporações de Ofícios, onde o acesso ao ensino era preferencialmente voltado para o homem branco e livre, não para os escravos. Daí se desenhou uma modalidade de ensino nos Liceus de Artes e Ofícios para atender as sociedades civis. Os Liceus recebiam subsídios públicos para formar mão-de-obra visando atender ao Império. De certo modo, a educação profissional nasce nesse momento. Junto com o advento da Proclamação da República em 1889. Veio o movimento de industrialização, deu-se a instalação de Escolas de Aprendizes e Artífices por todo o país e o ensino profissionalizante se consolidou!
Desde o seu surgimento, até os dias atuais, o ensino profissionalizante passou por diversas mudanças, mas nada que o referende como uma educação completa; prova disso é o Sistema ‘S’, composto pelas seguintes instituições: Senai, Senac, Senat, Senar, Sebrae, Sescoop. O sistema ‘S’ se propõe a atender a demanda do mercado de trabalho, referentes ao setor produtivo, da indústria, do comércio, agricultura, transporte e cooperativas. Além de qualificar e formar profissionais, o sistema também tem como missão promover o bem-estar social.
Historicamente, a elaboração e o engessamento do currículo também são reflexos da política de substituição de importação e da expansão comercial no Brasil, que ainda repercutem nos dias atuais. Nesse sentido, o Conselho Nacional de Educação promove uma reformulação das diretrizes para a educacional profissional, adotando novas praticas e tentativas de articular os saberes autonomamente (saber-fazer, saber-ser e saber-conviver), sem perder de vista  as situações concretas e inerentes ao trabalho e associadas a noções de uma estética da identidade,  estética da sensibilidade, ética da identidade, política de igualdade..., em resumo um ‘Ethos profissional’. Um “saber operativo, dinâmico e flexível, capaz de guiar desempenhos num mundo do trabalho em constante mutação e permanente desenvolvimento” (Conselho Nacional de Educação).
Quando falamos sobre a implantação de uma proposta político-pedagógica em uma instituição de ensino, nos referimos também a posturas sociais inseridas nesse contexto. Se uma gestão escolar administrativa opta adotar uma determinada prática pedagógica a outra, intrinsecamente ela dita quais caminhos trilhar no momento em que os educadores legitimam o conhecimento que será repassado aos seus educandos. Ora, se nesses conteúdos houver discriminação geográfica ou de outra ordem econômico-social, já irá se propagar um rastro do que Foucault chama de mecanismo de disciplina:

“Um direito de soberania e um mecanismo de disciplina: é dentro destes limites que se dá o exercício do poder. Esses limites são, porém, tão heterogêneos quanto irredutíveis. Nas sociedades modernas, os poderes se exercem através e a partir do próprio jogo da heterogeneidade, as disciplinas têm o seu discurso. Elas são criadoras de aparelhos de saber e de múltiplos domínios de conhecimento. São extraordinariamente inventivas ao nível dos aparelhos que produzem saber e conhecimento. As disciplinas são portadoras de um discurso  que não pode ser o do direito; o discurso da disciplina é alheio ao da lei e da soberania, mas o da regra “natural”, quer dizer, da norma; definirão um código que não será o da lei, mas o da normatização; referir-se-ão a um horizonte teórico que não pode ser de maneira alguma o edifício do direito, mas o domínio das ciências humanas; a sua jurisprudência será a de um saber clinico” (FOUCAULT, 1979, p. 189).

Estes mecanismos de disciplina são repassados aos contextos de ensino e aprendizado aos futuros professores que ingressam nas faculdades de Pedagogia e afins. Desse modo, o aperfeiçoamento dos docentes que irão formar novos profissionais da educação precisa não apenas de uma reforma curricular e/ou de novas técnicas de ensino, ou mesmo de teorias pedagógicas, mas é fundamental promover uma reforma interna do individuo, fazendo que haja a compreensão de que ele (e todos profissionais de todas as áreas da sociedade) agem em conjunto para validar ou desvalidar o que acatamos como ‘normatização’ social do conhecimento.
Sandra Corazza em seu livro “O que quer um currículo?” (2001) fala também das relações implicadas na confecção de um currículo e suas intenções. “É a partir da formação do currículo que formulamos os mundos, e a ele atribuímos sentido; ele é um dispositivo saber-poder-verdade na linguagem Foucaultiana”, ela esclarece ainda mais essa relação ao dizer:

 [...] que palavras um currículo utiliza para nomear as “coisas”, “fatos”, “realidade”, “sujeitos” são produtos de seu sistema de significação, ou de significações, que disputa com outros sistemas. Que um currículo, como linguagem, é uma prática social, discursiva e não-discursiva, que se corporifica em instituições, saberes, normas, prescrições morais, regulamentos, programas, relações, valores, modos de ser do sujeito” (CORAZZA, 2001, p.10).

Desse modo, entram e saem políticos na esfera publica de quatro a quatro anos através do processo de eleição partidária, escolhido pelo voto popular; porem a ilusão de poder dado à população continua firme e forte diante da ignorância da grande massa de manobra, quando a mesma desconhece que não é o poder da normatização em si que é a grande vilã, e sim os mecanismos utilizados pelos detentores do poder, que inibem o progresso espiritual e intelectual da sociedade.
Essas práticas e discursos de poder refletem em todos os campos da educação, ao que reflete às Artes em especial, a questão é ainda mais complexa. Temos professores jovens saindo das universidades, porém, poucos escapam do fatalismo da formação tradicional e replicam conteúdos e estratégias de ensinos defasados; exemplos próximos de nós corroboram tal constatação.
            Não obstante, podemos estender nosso olhar para este momento de formação, aonde o foco é nos formar para atender jovens e adultos na modalidade EJA. Por conta de uma demanda da própria Especialização, fizemos uma oficina de arte na Escola Duque de Caxias, (bairro da Marambaia, Belém/PA),  já aplicando outros saberes e orientações diferenciadas. Percebemos que por maior que fosse nosso empenho em apresentar conteúdos novos, didática participativa, avaliações coletivas, ferramentas tecnológicas; a turma rendia pouco, além da baixa frequência e evasão - comuns a esta modalidade de ensino. Foi possível detectar, nos poucos encontros que tivemos com estas turmas, que para além da escola, há uma vida difícil, uma família por vezes desestruturada, dificuldade financeira, etc., uma complexidade de variáveis que não podem ser ignoradas e aí está nossa missão enquanto educadores: fazer do ensino-aprendizagem uma estratégia de autonomia, emancipação e transformação na vida dessas pessoas.
Não sejamos ingênuos em colocar as dificuldades da escola e dos professores como  único motivo de poucos avanços na educação, por trás desse sistema há uma conjuntura social que não favorece o sucesso da escola pública. Falta ampliar as políticas sociais para corrigir essa desigualdade que é histórica. Para além disso, temos uma outra constituição na formação da sociedade em geral, outros paradigmas, diversas realidades, várias subjetivações; que às vezes contribuem fortemente para uma miséria simbólica. Mais uma vez o educador precisa reafirmar seu compromisso na formação desses jovens, resistir em cada sala de aula como se estivesse numa trincheira, para depois tomar todo o território da escola e da Educação como uma batalha possível de ser vencida. Enfim,  sua missão como educador estará completa, pois neste momento o ciclo educacional se reiniciará e novos desafios de formação estarão postos novamente em prova, e nós enquanto educadores estaremos fortalecidos. Saber sobre esse sistema de poder do qual Foucault nos alerta, compreender seus mecanismos em sociedade é primordial para que o novo educador não seja deformado e vencido pelo sistema.





 *Artigo escrito em Junho/2014.
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Referências:
Conselho Nacional de Educação (Brasil). (1999) op. Cit. 
  
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder, (organização e tradução: Roberto Machado), Rio de Janeiro: Graal 25ª ed., 1979.

CORAZZA, Sandra, O que quer um currículo? Pesquisas pós-críticas em Educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.


terça-feira, 15 de outubro de 2013

RELATÓRIO SOBRE AS AULAS DE TEATRO DE ANIMAÇÃO EM CAIXA

Projeto de Extensão “Teatro das Coisas – reaproveitamento material e imaterial do mundo”, coordenação: Profº Aníbal Pacha/ ETDUFPA.



[da esquerda para direita: eu, Profº Aníbal Pacha e Camila]



Foram três meses de execução, dividindo no cronograma encontros no Atelier do Casarão dos Bonecos In Bust, e cinco últimos encontros diretamente na rua objetivando a pratica das etapas de ABORDAGEM | IMERSÃO | DESPEDIDA do método estudado nas aulas que utiliza Imagens Disparadoras como indutor para produção textual cênica.

As aulas teóricas e práticas (construção de nossos suportes cênicos) eram orientadas pelo profº Aníbal Pacha (ETDUFPA), sob o auxilio de profº Msc. Fernando (ETDUFPA); durante todas as etapas, os encontros tinham seu registro fotográfico executado por ele, que também em muitos momentos acrescentava falas outras sobre o método, com o aval de profº Aníbal.

Percebi que tanto para as alunas que foram até o final da oficina (algumas, por motivos particulares, desistiram pelo caminho) quanto para profº Aníbal, foi um exercício de adaptação. Para nós, a adaptação consistia em adentrar e compreender esse viés cênico –  de Teatro de Animação em Caixas, através do método bem diferente e bastante criativo, embora dificílimo de adentrar, das Imagens Disparadoras; a de Aníbal, em perceber como ele poderia manifestar o conhecimento para diferentes maneiras de percepção que as alunas esboçavam. A meu ver, as alunas que tiveram maiores embates foram Evelyn e eu. Talvez mesmo a que mais se debateu tenha sido eu, devido inúmeras vezes eu dispersar nas aulas e também perguntar em demasia, porque me interessava. Inclusive li todo o livro que Aníbal nos indicou justamente para aprofundar melhor minha compreensão sobre o assunto. A POSSIBILIDADE DO NOVO NO TEATRO DE ANIMAÇÃO de Henrique Sitchin é muito bom, me diverti bastante lendo-o e fazendo alguns apontamentos que pretendo em breve postar no meu blog de teatro.

Devido à dificuldade de adentrar e compreender o método sugerido por Aníbal, exercitei também permanecer com a mente aberta como ele me orientava sempre: “procure não engessar a ideia, percorra o caminho para compreender como funciona. Depois tu utiliza isso como tu quiseres...”. Assim, procedi durante as aulas teóricas e de formatação cênica. Particularmente essa foi a indicação que eu mais gostei vindo da parte de Aníbal. Realmente ele é o professor mais honesto que conheço. Isso fez toda a diferença!

Contudo, houve alguns momentos que eu cogitei desistir do curso, devido a pequenos desentendimentos sensoriais entre a forma que Aníbal repassava o conhecimento, que violentava um pouco minha sensibilidade. Entre mortos e feridos nessa pequena guerra, venceu o Teatro, enfim. Depois de um tempo, conseguimos entender-nos, e as coisas fluíam como tinha de acontecer, pois para minha sorte Aníbal é bastante sensível e amorosamente justo com os alunos. Devido a esses esbarrões eu percebi o quanto eu havia amadurecido no meu caminhar teatral. Embora, acredite ainda haver (muitas) camadas que devo me despir para seguir adiante na arte misteriosa e secreta do Ator. Minha domesticação do espírito já é real, entretanto. E isso é bom para quem deseja jogar-se nesse Fogo do Palco.

Mas percebo que muito além de atuar, o que me seduz mais é compreender e traduzir essas camadas sobre a linguagem cênica para registrar e passar o conhecimento adiante, pois procedendo desse modo eu também vou me compreendendo e evoluindo enquanto ser social e Partícula Divina a transcender. Desde sempre busquei o teatro (e as Artes em geral) como ferramenta para meu autoconhecimento e de interação com o mundo. E o Teatro, como todas as manifestações artísticas servem para isso: domesticar o espirito, sensibilizar o individuo, torná-lo maleável, íntegro, remexer a inteligência e transcender a forma.


Katiuscia de Sá
15 de outubro de 2013, 14:48h.





domingo, 13 de outubro de 2013

DIÁRIO DE ATIVIDADES – XII

[aulas de TEATRO DE ANIMAÇÃO EM CAIXAS - professores: Aníbal Pacha e Fernando]
*Projeto de Extensão “Teatro das Coisas – reaproveitamento material e imaterial do mundo”, coordenação: Profº Aníbal Pacha/ ETDUFPA.

[minha primeira ABORDAGEM desta noite]

Na noite de 11 de Outubro de 2013, aconteceu a última apresentação publica do resultado dos trabalhos cênicos coordenados pelo profº Aníbal, com auxilio de profº Fernando. As alunas Evelyn, Camila e eu percorremos as adjacências do trajeto do Auto do Círio. Nossa atividade iniciou às 19h na Pça. do Carmo, e seguimos para Pça. Frei Caetano Brandão e Pça. do Relógio. Ainda com o intuito de colocar em prática o que me foi orientado realizar nas falas de Aníbal, durante meu primeiro contato com o publico (domingo – 29/09/2013, na Pça. da República). Esta seria minha primeira apresentação sem nenhum recurso de maquiagem usando meus óculos de grau, olhando diretamente nos olhos do publico numa abordagem realmente bastante próxima, corpo-a-corpo de fato. Essa seria a barreira última que eu deveria ultrapassar enquanto atriz... Para uma pessoa tímida, é como uma montanha a ser escalada para ver o sol despontando acima das nuvens, revelando um novo horizonte. Como escolhi experienciar a vida de modo que não violente minha sensibilidade, fui passo-a-passo.

Além de administrar esse estado interior de tensão, havia outro dado que para mim, dificultava tudo. Como profº Aníbal iria participar do cortejo do Auto, os trabalhos de monitoramento e orientações ficaram sob responsabilidade de profº Fernando, e ele nos orientou para fazermos a abordagem de uma forma mais firme, mais racional (no meu ponto de vista). E naquele momento eu estava mais sensorial do que racional..., essa orientação causou-me preocupação, pois eu deveria me ocupar além da escolha dos indivíduos que eu percebesse receptivo (de maneira bem prática), eu teria de atentar em não perder de vista profº Fernando, e evitar me afastar demais das minhas colegas; e também perceber auditivamente o momento do inicio do Auto, pois nós iriamos para o lado oposto ao cortejo. Então novamente o equilíbrio nos pratos da balança: razão e emoção. Foi um exercício difícil no inicio, mas gostei. No primeiro momento eu me perdi de profº Fernando e Camila, então tive que me decidir. Mantive as indicações de Fernando sobre os locais para a abordagem do grupo. Segui sozinha a caminho do outro ponto estabelecido no inicio pelas orientações de Fernando. No trajeto encontrei Evelyn e repassei a ela as coordenadas.

Da minha primeira abordagem, até mais ou menos à quinta, eu me deixei levar totalmente pela intuição, não utilizando muito minha visão periférica para a escolha das pessoas, eu apenas ‘senti’ e me permitia ir à direção que meu coração mandava. Estava me adequando ao espaço e também às sensações que eu deveria administrar dentro de mim. Fui realmente totalmente aberta para o ‘estado de jogo’, e devia o mais rápido possível, encontrar esse equilíbrio no Logos para eu poder pegar o time dos trabalhos naquela noite e também não me deixar abandonar unicamente aos sentimentos. Recordo que já por volta das 16h desse dia, eu já estava bastante tensa e interiormente receptiva ao ‘estado de jogo cênico’, como mencionei em conversa com a colega Evelyn, durante nossa ida à Pça. Frei Caetano Brandão. Ela também disse que algo semelhante aconteceu com ela.

E encarar as pessoas diretamente nos olhos era o que mais me preocupava. Senti-me como que vencendo um fantasma que sempre me cerca. Devido meu comportamento de não encarar muito os olhos das pessoas em primeiro momento, na maioria das vezes posso passar a impressão de ‘antipática’, ‘metida’, ‘esnobe’, ‘arrogante’, etc..., quando na verdade, trata-se apenas de timidez mesmo, que vai se dissipando aos poucos, assim que me acerco das pessoas, situações e de lugares novos onde adentro, deixo-me ir pelo meu tempo interior. Sempre fui muito observadora e prudente com as coisas/pessoas, sou bastante sensível e doso o que absorver para meu interior. Cuido de minha psique com o mesmo zelo com que cuido de meu corpo físico, é algo que pratico desde a infância, justamente por eu ser muito frágil a essas ‘energias’.

O fator DESPEDIDA, em minha abordagem ainda não estava definido. Como me permiti iniciar os trabalhos da noite unicamente pela intuição, foi incrível! Minha primeira aproximação (foto) me deu as respostas que eu precisava. Após a IMERSÃO do senhor, ele quis estabelecer conversa comigo sobre o que havia visto. Eu deixei. Então de sua própria fala conclui qual seria minha frase final e de efeito fixador do mini-espetáculo para as pessoas; e nisso decidi olhar diretamente nos olhos do espectador quando eu executasse a DESPEDIDA. Então derrubei todos os tijolos da parede... E realmente foi bastante emocionante esse contato com as pessoas. Posso dizer que depois da minha primeira apresentação, em 97% das demais, eu consegui tocar o publico como eu deveria. Foi lindo. E percebi que imediatamente cresceu um magnetismo no meu entorno, que em primeiro momento (literalmente) atraiu as pessoas para perto de mim. Várias delas queriam ver o espetáculo que eu carregava, e foi nesse instante que eu perdi de vista profº Fernando e a outra participante.

Nesse ponto agora, eu tive de administrar as coisas que mencionei em paragrafo acima: equilibrar emoção/razão; utilizar minha visão periférica e poder de decisão individual em prol dos trabalhos coletivos executados pelo grupo naquela noite. Graças a Deus isso se deu rápido. Acredito que o que me ajudou muito foram as orientações iniciais de Fernando, que falou de forma seca e sólida, suas palavras formaram a ancora que eu-atriz deveria manter firme para não me perder nos trabalhos.

Durante toda noite Fernando foi rígido comigo e com Evelyn, mas naquele momento, por mais que o achássemos antipático e implicante, eu particularmente compreendi o que ele queria, então também administrava as emoções dentro de mim em prol dos trabalhos da noite. Contudo, percebo que a sensibilidade de Aníbal durante as aulas faziam com que ele percebesse qual abordagem funcionava com as alunas. Recordo-me que na penúltima aula no atelier, ele e Fernando me bombardearam de perguntas de forma muito rígida e agressiva, e após perceber que não surtiu o efeito esperado, Aníbal gentilmente me disse: “tu não funciona dessa forma, não é?”. Eu apenas acenei com a cabeça prestes a chorar. Acho que depois disso Aníbal foi sempre mais delicado quando precisava me repassar algo por meio da Doxa.

Ele com seus anos de experiência de mestre, conseguiu estabelecer diálogo. E eu percebi que alcanço o amadurecimento necessário para meu oficio de atriz. Acho que se completou o ciclo que profª Karine Jansen me disse em avaliação final ainda no meu 1º ano no Técnico em Ator. Lembro-me que ela igualmente a Fernando, também me era muito rígida e demasiada exigente; gerando em mim uma certa antipatia e afastamento. Mas quando ela proferiu na frente de toda turma, sua avaliação em relação ao meu trabalho na peça "Tayo To Ame", que foi o seguinte (nunca esqueço): "Katiuscia já é 95% atriz...", eu segurei minhas lágrimas de emoção. Pois vindo dela tais palavras, pra mim significou muito. Ouvindo isso, achei que eu podia seguir adiante no ofício, que teria capacidade de continuar no caminho... Agradeço muito a Aníbal por mais essas experiencias. Elas me trouxeram uma visão mais ampla sobre mim mesma e enquanto compreensão da linguagem cênica, e também confirmou meu amadurecimento.


Outro momento que gostei muito, (mesmo contrariando as indicações de Fernando), foi quando Evelyn e eu jogamos simultaneamente. Apresentamos nosso suporte uma para a outra. Eu adorei ver minha colega atuando. Fomos generosas uma com a outra. Adorei perceber sua mudança corporal e facial, perceber e reconhecer sua energia cênica. O mesmo eu fiz para ela. E nós atores sabemos que nesse momento do ‘estado de jogo’ repassamos uns aos outros o que temos na bagagem sobre a nobre arte secreta da interpretação. Amei esse momento. Ficou no meu coração para sempre! E isso me fez recordar como um relâmpago outras passagens que tive com meus professores da Escola de Teatro. Estão todos no meu coração. É incrível, carregamos conosco essa espécie de herança que nos é repassada tipo de mestre para discípulo... O mesmo fiz com Camila após o término dos trabalhos da noite, por volta das 21h, por conta do toró que se abateu. Esse também foi um exemplo de fator externo e susceptível ao qual o artista quando se apresenta na rua está propenso: as adversidades naturais sempre nos fazem mudar os planos. Mas isso também faz parte do espetáculo.

Aqui finalizo meus Diários de Atividade acerca do método das IMAGENS DISPARADORAS estudadas durante as aulas do Projeto de Extensão “Teatro das Coisas – reaproveitamento material e imaterial do mundo”, coordenado pelo profº Aníbal Pacha/ ETDUFPA.


Hellen Katiuscia de Sá.
13 de outubro de 2013, 17:57h.






terça-feira, 8 de outubro de 2013

DIÁRIO DE ATIVIDADES XI

[aulas de TEATRO DE ANIMAÇÃO EM CAIXAS - professores: Aníbal Pacha e Fernando]
*Projeto de Extensão “Teatro das Coisas – reaproveitamento material e imaterial do mundo”, coordenação: Profº Aníbal Pacha/ ETDUFPA.




Durante a aula prática ocorrida no domingo último (29/09/2013) na Pça. da República (Belém/PA), dei inicio ao procedimento de ABORDAGEM, IMERSÃO e DESPEDIDA junto aos transeuntes. Os professores Aníbal e Fernando acompanhavam e observavam de longe minha aproximação com as pessoas. Em alguns momentos Aníbal, em reservado, interferia com suas falas explicativas orientando-me para questões pertinentes ao processo de abordagem. Além disso, questões técnicas também tiveram de ser resolvidas ali mesmo na hora, tais como o remanejamento da iluminação para outro ponto do meu suporte; também fui orientada a não utilizar óculos escuros (pois prejudicaria no momento do “contato” com o publico, e também eu deveria estar usando meus óculos, pois com minha miopia de quase 4 graus eu deixava passar muitas oportunidades para estabelecer contato com as pessoas...). Nesta aula prática eu também experimentava como manusear meu suporte.

Eu senti um leve medinho antes do inicio das abordagens; pois fazer Teatro Mambembe de rua difere do Teatro de Caixa (teatro em prédio fechado), bem como de Teatro de Arena, e de intervenções e performances. Mas esse tipo de Teatro de Animação em Suporte de Caixa cujo contato com as pessoas literalmente é bastante próximo, realmente foi minha primeira vez. E o que apavora o ator tímido (mesmo os experientes) é essa abordagem e aproximação LITERALMENTE cara-a-cara com o publico... tudo pode acontecer. Tudo é inesperado. Tudo é inusitado. O ator deve estar primeiramente ‘disponível’, ‘aberto’ para o ‘Jogo’. E também, já ter amadurecimento suficiente (ou ter uma baita cara-de-pau) para aproveitar as falas dos indivíduos para induzi-los ao objetivo, que são os passos seguintes do método estudado aqui – a IMERSÃO e DESPEDIDA. O ator também deve ser um ótimo ‘jogador’ para manusear e transformar as ‘energias’ de cena como bem entender.

E essa foi a primeira vez que eu não utilizei nenhum recurso de maquiagem como link psicológico indicando-me para mim mesma que eu não era eu, eu era a personagem. Acho que neste ‘jogo’ em particular, existia uma linha muito tênue mesmo com minha personagem, agora pela primeira vez de cara limpa enfrentando o púbico. O estranho que mesmo com essa tensão, havia um quezinho de serenidade em mim. Mas ainda devo superar outro ponto: encarar o palco olhando o mundo pelas lentes de meus óculos de grau... Em oito anos de atividades teatrais eu sempre vi tudo embaçado. Isso me ajudava bastante na hora de encarar o ofício de atriz. Mas acredito que já está na hora de me libertar disso também. Para quem já fez inúmeros trabalhos nus (o que é o terror para todo ator/atriz em principio), ver o mundo como ele é, não deve ser pior do que a tensão que experimentei na manhã deste domingo no parque...

Além disso, nessa mesma manhã eu era única aluna escoltada pelos professores Aníbal e Fernando, as demais alunas não foram por motivos particulares. O que me fazia sentir quase abandonada na cova dos leões... mesmo assim fui, com o coração na mão e a confiança em algum lugar no passado... Isso que eu chamo de jogar-se mesmo! Foi uma experiência sem precedentes. Depois da tensão, eu me senti como um anjo cego enviado por Deus num terreno desconhecido, a fim de levar um punhadinho de Luz aos corações abertos que queriam isso. Foi uma manhã poética para mim. E quando tudo terminou, eu ainda levava comigo o semblante das pessoas que se sentiam mais alegres ao contemplarem o que havia dentro de minha caixa. Foi reconfortante. Durante o restante do dia essas pessoas ainda estavam comigo. Foi lindo sentir isso tudo.

As reações das pessoas foram as mais diversas possíveis, mas em geral elas saiam felizes após assistirem a exibição do mini-espetáculo de animação dentro do meu suporte (então concluo que meu objetivo fora alcançado). A seguir relatarei as situações que mais me chamaram atenção e que contribuíram para a construção da fala de minha personagem, e também para estender o ‘Jogo Cênico’ com o publico, perceber o quê funciona e o quê não funciona. Lembrando que meu suporte é uma representação estilizada do Palácio dos Planaltos de Brasília/DF, com algumas imagens externas ao suporte que dialogam com o texto inicial de ABORDAGEM da minha personagem. E devido às reações das pessoas ao contato com esse tipo de teatro, abria-se para mim um ótimo momento para refletir sobre meu ofício enquanto encenadora. Então eu as observava e pensava: “o que eu tô fazendo aqui?”

SITUAÇÃO UM:
Três jovens (duas moças e um rapaz), estão parados em grupo, me olham e eu aproveito; aproximo-me e dou minha fala abrindo espaço para ABORDAGEM. Consegui a imersão dos três. Todos olharam no suporte (insistiram, até!), mas a DESPEDIDA não foi bem planejada. Eles ficaram tão interessados no que experimentavam que perguntavam o que era aquilo, então tive de me distanciar de minha personagem, e apenas lhes disse tratar-se de ‘Teatro de Animação em Caixa’, e nada mais. Contudo, queriam saber mais sobre esse tipo de teatro, eu apenas resumi como sendo mais uma modalidade de Teatro na contemporaneidade, e disse-lhes que minha apresentação era uma aula que eu estava tendo naquele momento, monitorada pelo meu instrutor. Eles responderam: “legal...”, então me despedi, com eles dizendo: “boa sorte!”. Nisso eu concluo que minha DESPEDIDA não foi a adequada ao jogo cênico, pois tive de me distanciar para explicar o que eu estava fazendo enquanto intérprete. Eu acho que naquele momento eu não devesse quebrar a Quarta Parede tão profundamente a ponto de abandonar minha personagem para responder às perguntas dos jovens... mas acredito que minha pré-disposição para docência burlou tudo, e eu me via no dever de responder ao interesse deles pela questão.


SITUAÇÃO DOIS:
Um casal parado num canto comendo algo... abordei a senhora, que (meu Deus!), apresentou-se totalmente apática. Não conseguiu adentrar no suporte, nem o quis. Mesmo com minhas tentativas de ABORDAGEM. A mulher parecia nem saber por que estava ali... não sabia nem por que nascera... foi bastante frustrante, mas dei-lhe bom dia, e segui. Enfim. Naquela manhã de domingo eu pude experimentar todo tipo de reação das pessoas. Mas desta senhora, confesso que a depressão dela quase se instalou no meu coração... tratei de diluir aquela energia, e tocar adiante. Eu percebi, que com uma abordagem direta como o publico, o artista da cena deve dosar estar ‘aberto’ para o contato, mas também saber se defender dessas ‘energias’ baixas e não se deixar contaminar com essas situações adversas. Eu achei que nesse tipo de teatro, é difícil manejar as ‘energias’ e estados disponíveis para a cena. Acho que, assim como Teatro Mambembe é um super exercício para o amadurecimento e manutenção psicológica e psíquica do ator, em variados aspectos, o Teatro de Animação em Caixa também o é, e exige muito do atuante desde o inicio de seu processo linguístico.


SITUAÇÃO TRÊS:
Uma dupla de amigos. Eles passaram por mim num dos corredores super populosos da praça. Havia barulho de bandinha tocando num coreto próximo, do outro lado ao longe, uma apresentação de brega (eu acho), só sei que o barulho e trafego de gente era infernal! Mas... um dos rapazes olhou favorável para meu suporte e para mim, então aproveitei a chance. Iniciei a ABORDAGEM; o moço estava igualmente aberto para a experiência, e olhou para dentro de meu suporte. Saiu mais feliz ainda de quando se interessou. Apertou-me as mãos, desejou-me um ótimo domingo com um lindo sorriso instalado no rosto. Sua energia foi contagiante! Acho que se demorasse mais um pouco haveria o momento dele me enfiar os braços sobre meus ombros e me arrastar pra tomar uma cerveja e bater um papo... de tão próximo que ele ficou de mim. Ele alcançou de imediato o que as imagens de dentro de meu suporte falavam. Mas foi engraçado.


SITUAÇÃO QUATRO:
Uma família (pai, mãe e um casal de filhos ainda garotos). O pai de família olhou para minha caixa, aproveitei a deixa e quando segui na sua direção, o homem foi tão espontâneo! Ele desesperadamente se esquivava dizendo: “Não! Não vem não. Afasta isso de mim... aí só tem ladrão...”. E ao nosso redor sua esposa e filhos se divertiam com a situação. Então eu aproveitei a própria fala e reação do homem para persuadi-lo a interessar-se em olhar dentro do suporte. Ele foi favorável, embora ainda bastante desconfiado. E foi interessante eu acompanhar a mudança tensa de postura corporal do homem e relaxamento do semblante dele em relação ao apresentado dentro do meu suporte. Eu confesso que esse foi, (de todos), o momento em que eu me emocionei de fato. Pois o homem estava visivelmente contrariado à minha ABORDAGEM. E vê-lo se transformar na minha frente, perceber seu rosto feliz e até mesmo com rascunhos de esperanças... Naquela manhã eu havia tocado alguém, e para mim, meu oficio enquanto artista da cena, valia à pena... não há nada comparado quando um artista consegue estabelecer esse ‘contato’ com alguém a ponto de fazê-lo mudar de paradigmas através de sua própria emoção, leitura de mundo e experiência sensorial quando ele (publico) consegue comunicar-se com o que está sendo apresentado pelo artista. Ocorre um ‘dialogo’, uma troca de experiências, de energias... Eu fiquei bastante feliz. Muito emocionada. Cumpri meu papel no mundo naquele ínfimo momento perdido no tempo e na memória de ambos.


Katiuscia de Sá
Escrito em: 30 de Setembro, 01, 04 e 08 de Outubro de 2013.
14:51h. *ouvindo “Warm Air” (Vanessa-Mae).